Se você trabalha fora e tem filhos, com certeza já escutou que o importante é tempo de qualidade.
Eu sempre achei isso um pouco estranho, por que parecia que se eu focasse bem uma parte do meu tempo com meus filhos, esquecendo o mundo, seria o suficiente para ser uma mãe, digamos assim, perfeita? Então a outra parte não seria tempo de qualidade? O tempo que eu uso para cuidar com zelo de suas roupinhas, não seria um tempo de qualidade? Todas aquelas horas juntando brinquedos espalhados pela casa, limpando marcas de mãozinhas pelas paredes ou fazendo aquele prato preferido depois de limpar a cozinha inteira, não seria a qualidade expressa nos meus atos de amor e serviço? Eu não conseguia ver assim... era qualidade em tudo que fazia. Absolutamente tudo, com leves derrapadas, por que ninguém é de ferro, mas eu estava ali, propondo o meu melhor!
Aquela equação nunca fechava, porque desde os primórdios do BlackBerry, não importava onde estivéssemos, alguém sempre nos encontrava, ou através de seus emails as quatro da manhã enquanto amamentava ou através de uma sequência de emails urgentes logo no fim do expediente. A tecnologia que nos fazia mais presente no trabalho nos tornava mais distante em casa, em uma pressão pelo imediatismo em retornos de urgências que não eram tão urgentes, que poderiam perfeitamente esperar o amanhecer de um novo dia util.
Eu nunca entendi como tempo de qualidade a diferenciação de espaços da jornada com ou sem filhos, entendia como meu tempo, com meu momento com a minha familia. E quando entendemos isso a gente entende o fato real do mais belo significado da presença. Estar lá e não estar, viver e manter a cabeça longe atormentada com os problemas do trabalho, vai tirando o seu Norte, daquilo que seria seu momentom, o seu objetivo de viver a maternidade. Ah sim, a presença. Essa sempre batia na minha porta. Aline, você está aqui mesmo?
Algumas vezes eu falhei miseralvemente nesta função de estar presente, mesmo com a melhor das intenções.
Já acompanhei apresentação escolar com o fone de ouvido em uma call, ou seja, não estava lá nem acolá, reuniões com professora respondendo emails, já fiquei em pronto atendimento esperando febre abaixar com o computador ligado, e não diferente, viajei de férias e fiquei trabalhando em diversos momentos. Era fornecedor, era chefe, era liderado em contato a todo momento. Por isso amava tanto as férias coletivas, já te contei aqui nesta Coluna, lembra? Se não lembra e tiver curiosidade, da uma lida no texto que falo sobre férias neste link aqui: Saiu a lista das ferias coletivas! Coloco ou não coloco o meu nome? - Procurement Digital .
Não há arrependimentos tão pouco ressentimentos, existe hoje uma serie de aprendizados de que não é o tempo de qualidade somente e isolado que fará a diferença, e sim a presença ao sentir o peso da mãozinha de uma criança acalentar sua mão. Presença! O verdadeiro "viver o agora"!
Eu vejo uma série de avanços em relação a isso, e já até comentei aqui, a flexibilidade de quem pode trabalhar no híbrido proporciona um equilíbrio maior destas situações, hoje já existem leis que protegem o envio de mensagens fora do horário, e lideres mais conscientes da humanização da relação trabalhista – mas de nada adiantará se a mente não estiver limpa e aberta para viver esse momento.
Voltei de férias agora, fiz algumas pouquíssimas reuniões no período, mas "o olhar"cada vez mais vivo no presente me fez pensar em como podemos nós cada vez mais em nosso ambiente de trabalho permitir que os pais sejam pais, contemplando a realidade e as circustâncias que o cercam. Como seria possível entender que aquela pessoa, o funcionario, tem um universo completo que é o mundo de um ser pequeno? Ententer que ele tem seres pequenos que dependem dele?
Uma mãe entrega o resultado com filho doente, mas com a criança adoentada, ela tem o coração oprimido, e se é assim, como não flexibilizar sua jornada de trabalho naquele momento? Como tornar mais tranquilo um momento que já é dificil? A gente nunca saberá a dor do outro.
Não conseguiremos mudar muito, dependemos das Organizações e claro de leis trabalhistas, mas o que tiver ao nosso alcance, nós podemos fazer, fazer pelo outro que está ao seu lado. E por que então, não fazemos?
Trabalhar fora não vai em hipótese alguma te diminuir como mãe ou como pai. Voce ensinará todos os dias a importância do ofício ao seu filho, mas buscar um equilíbrio verdadeiro da presença com seus filhos é nossa responsabilidade, é sua responsabilidade dentro da sua autogestão. Saber dizer não a um projeto para ficar mais em casa, porque nem tudo é sobre dinheiro, negociar com sua liderança os horários das apresentações escolares, acompanhar em uma atividade extra quando possível e sair do automatismo de dizer que está cansado demais para brincar ao final do dia. Descansaremos na eternidade, e viveremos aqui o melhor dos mundos que nossos filhos possam receber de nós pais, em uma verdadeira entrega de amor!
Ao contar para vocês que estava de férias e ao retornar no primeiro dia com trabalho acumulado inclusive o da casa, com as tarefas de desfazer malas e organizar as roupas, meu filho me pediu para jogar uma partida com ele no meio da manha. Aquilo desordenou o meu dia por inteiro e me trouxe horas de sono a menos para colocar o trabalho em dia no começo da noite, mas isso fez o dia de uma criança, o meu filho e por quanta vezes eu não conseguiria fazer se estivesse com a mente em outro lugar?
Marcos Piangers, um autor que admiro muito, e recentemente tive a honra de encontra-lo e a oportunidade de conversar sobre o quão a nossa presença efetiva, real, sincera na vida dos nossos filhos se faz imprescindível, me faz repensar todo os dias o quão nossos olhos estão voltados para essas crianças. A infância só acontece uma vez, e em um piscar de olhos, seu filho terá doze, treze anos... daí não há recurso emocional ou financeiro que fará o tempo voltar.

Deixo com vocês, o texto que ele publicou recentemente, Treze Verões, que traz uma verdade absoluta, daquela de doer o coração e dar um nó na garganta, e que certamente, se voce tem filhos, o fará ver a relação de trabalho e parentalidade com outros olhos:
Tivemos treze verões na praia, todo final de ano. Até que minha filha mais velha me disse: “não gosto mais de praia”. Passou a ficar na cidade, com amigas. Foi abrupto. Em um verão dançávamos no mar, apostávamos corrida, desenhávamos na areia. No outro, estava sem ela.
Faço cálculos. Tenho treze verões com minhas filhas. Por quatro anos, são bebês. Por nove verões, são crianças. Depois disso, adolescentes. Apenas vinte dentes de leite para guardar. Apenas sete apresentações de final de ano. Apenas uma formatura. Cinquenta natais, talvez.
A rotina desgastante faz a vida parecer um filme em câmera lenta. Um filme exaustivo. Mas, de repente, sem aviso, o filme acaba. E você sente saudade. Quer rever o filme, aproveitar mais da segunda vez. Rebobinar. Os dias parecem longos, mas os anos são curtíssimos. A infância passa devagar e, de repente, passou rápida demais.
Vá nas apresentações escolares. Pegue seus filhos na escola. Transforme os momentos mais chatos em brincadeiras. Ria perto dos seus filhos, para que eles sintam que você gosta de cuidar deles. Veja-os aprendendo a andar, falar, correr, andar de bicicleta. Esteja na formatura. Chore no casamento. Seja um bom avô. Esteja com eles de corpo, alma e vontade. Aproveite o tempo que tiver com seus filhos. Serão apenas treze verões. Treze mágicos verões, que passam rápido demais.
Sejamos Presença!
Com carinho,
Aline Rebelo, @nobrium_carreira
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