Uma das consequências de qualquer novo modismo no universo corporativo contemporâneo é que logo após sua chegada, via de regra, percebemos o surgimento de todo um ecossistema de empresas e serviços voltados a atendê-lo.
Vi isso acontecer com a onda da Sustentabilidade que começou há uns 20 e poucos anos atrás.
Certificadoras, auditorias, consultorias, índices, etc. Esta onda varreu as empresas que transformaram o triple bottom line da sustentabilidade em toda sorte de indicadores e metas.
O conceito foi desdobrado dentro das empresas em múltiplos planos de ação; com responsáveis, datas de atingimento, orçamentos dedicados a estas ações e claro bonificação aos seus atores pela conclusão com excelência de tais planos.
O pilar ambiental por exemplo, citando apenas um dos elementos do atual ESG, advém dos anos 70 com a chegada das normas ISO de conformidade ambiental; a famosa ISO 14.000.
De lá para cá, ele se desdobrou em outras metodologias e conceitos que serviram para alavancar toda a sorte de profissionais envolvidos nas ações voltadas para o meio ambiente.
Todo um dialeto e terminologia direcionada para estas iniciativas também surgiu. Escopo 1, 2 e 3, externalidades, Carbon Free, Créditos de Carbono etc. Passamos a ter, portanto, uma iniciativa cada dia mais hermética, construída e voltada claramente para quem “é do ramo”.
Agora vejo estas questões ligadas a uma "agenda do bem" do universo corporativo sendo repaginada, desta vez renomeada com a sigla ESG. Percebo mais uma vez uma frenética corrida por certificações e atestados de conformidade. Recentemente, inclusive, li um texto que estava pipocando pelas redes sociais que mencionava que no Brasil parece ter surgido a prática da falsificação de certificados por algumas empresas com intuito de se habilitarem a participar de licitações e processos de homologação junto a seus clientes.
O que de concreto temos dessa história toda é que de fato não tivemos avanços significativos no Brasil nos últimos 40 – 50 anos tanto quanto ao "E", ao "S" e infelizmente também ao"G".
As empresas e seus profissionais parecem teimosamente deixar de lado o verdadeiro objetivo com ações voltadas para o meio ambiente, as causas sociais e as boas práticas de governança.
Por outro lado, costumo dizer que as pessoas em sua grande maioria são ESG por essência. Acredito que poucos fiquem insensíveis a um meio ambiente degradado; a um rio Tiete e uma Baia de Guanabara que não conseguimos despoluir, citando apenas alguns exemplos bastante conhecidos e que vem sendo alvo de ações de despoluição há muitos anos. Também acredito que a grande maioria das pessoas se incomode muito com a persistente desigualdade social que temos por aqui. Nosso país figura há décadas como sendo uma das 10 maiores economias do planeta e até hoje não conseguimos distribuir de forma justa nossa riqueza. A olho nu, somos um país pobre. Assim como também acredito que nós brasileiros não somos insensíveis ao mais recente caso de corrupção e fraude divulgado pela mídia, infelizmente de forma rotineira.
Ou seja, dentro de nossos corações e por nossas crenças somos todos ESG. A principal questão, portanto, é:
Como fazemos para migrar este sentimento ESG do CPF para o CNPJ?
Talvez esta seja a pergunta do milhão. Se achamos que precisamos melhorar nestes atributos, o que nos inibe para de fato agirmos nesta direção? E porque as empresas, que organicamente são conduzidas por pessoas "ESG", não conseguem dar um foco efetivo a esta questão de uma forma que consigam cruzar as fronteiras de seu negócio?
Espero muito que tenhamos um mundo corporativo com menos certificações, atestados, auditorias e relatórios e mais pessoas em sua alta gestão com real vontade de fazer a diferença em benefício do bem comum de toda a sociedade brasileira. Onde teríamos apenas 3 metas: Restaurar e preservar o meio ambiente, distribuir riqueza e acesso a todos a itens básicos como educação, moradia, saúde e segurança e eliminar no país atos de fraude e corrupção.
E como saberíamos que atingimos a meta? Quando todos os brasileiros percebessem que vivem em um país melhor, mais justo e fraterno.
Enfim, menos burocracia e mais ação.
Certamente apenas um sonho.
Porém, como diria nosso querido Raul Seixas
“Sonho que se sonha só é só um sonho, mas o sonho. que se sonha junto é realidade”
Procurement Club
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