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Não existe ESG sem honestidade, ética e caráter

Me recordo aqui de uma conversa, que tive em uma das empresas nas quais trabalhei, onde o Superintendente de auditoria me abordou sugerindo que eu criasse um plano de ação para aumentar o controle nos processos de compras da empresa. Isso iria me penalizar bastante no aumento de horas de trabalho das minhas equipes, na execução de tais controles e principalmente me impactaria de forma significativa na redução da agilidade dos processos de aquisição da empresa.

Na ocasião me recordo de ter dito a ele que meu maior “controle”, aquele que me permitia ter uma boa noite de sono, estava ancorado na contratação de profissionais éticos e honestos.

Ele devolveu a minha resposta com uma risadinha, meio que de lado, e me disse que isto não seria o suficiente para mitigar tais riscos.

Somando esta minha lembrança ao que vejo agora, relativo a mais uma situação de um rombo financeiro encoberto por anos como este da Americanas, fico me perguntando quais critérios os acionistas de uma empresa utilizam para escolher seus executivos.

Adicionando ao tema um comentário pessoal importante e muito aqui entre nós, é exatamente por isso que sou tão crítico com este mercado de certificações, documentações, atestados e indicadores ESG de todo o tipo.

Em minha visão me parece que este foco é meio que dirigir seu carro dando mais importância ao painel de indicadores do veículo do que simplesmente em se curtir a viagem. Claro que sem ter a certeza e garantia que conseguimos chegar a nosso destino nem saímos do lugar, mas controlar indicadores não poderia ser o propósito e sim o meio.

Se tudo isso fosse efetivo, eficiente e garantisse boa governança ok. Estes casos nos demonstram que tais controles sozinhos não são a prova de bala. Ter gestores mais éticos certamente é uma ação que combinada a estes controles trazem maior efeito do que a simples criação de mais e mais chicanes e dashboards.

Certa vez em uma entrevista que fiz ao craque em Compliance Daniel Lança ele proferiu a seguinte máxima: "Se controle em demasia fosse suficiente para inibir atos de fraude e má gestão as empresas públicas seriam referencia, o que não é o caso. Muitos relatos de fraudes acontecem justamente nestas empresas e o que acaba ficando é apenas uma imensa burocracia".

De nada adianta falarmos de ESG e sairmos criando indicadores que alegram o investidor porém na cozinha delegarmos a gestão corporativa e executivos capazes de qualquer ação em prol do resultado. Isto não é só má fé, é índole. E esses valores vem de berço, no pacote intrínseco do ser humano e é trazido junto pelo executivo ao ser contratado para gestão da empresa.

Apenas para pontuar temos uma cultura ativa em enaltecer a quem tem cargo, poder e dinheiro. Não vou me ater a este ponto aqui porque o assunto é mais profundo e prefiro tratar em outro artigo. Só vale a reflexão sobre o ponto em que executivo algum deveria ser tratado como popstar. Isso não faz sentido.

Acredito também que o mercado de capitais deveria evoluir para além de suas normativas, índices, formulários e DFs. Construir uma cultura onde o resultado seja apenas mais um indicador e não o principal, é muito difícil porém necessário. Executivos capazes de práticas não éticas não deveriam ganhar como bônus um outro cargo equivalente em outra empresa e assim continuar perpetuando esta cultura.

É chegada a hora de promovermos novas lideranças onde não somente a capacidade de realização e entrega de resultados fossem atributos de escolha destes profissionais.

Mas enfim, quem sabe (e sendo otimista) não estamos perto do fim de uma era de executivos com este perfil. Temos uma nova geração de profissionais por ai com um pacote de valores diferentes.

Espero apenas viver o suficiente para ver esta mudança acontecer

Procurement ETHICAL Club

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