No dia 20 de março de 2020 o Procurement Club realizou seu primeiro evento virtual para tratar sobre o impacto do corona vírus na perspectiva de Procurement e Supply Chain sob a ótica de especialistas no assunto dos Estados Unidos, Europa, China e Brasil.
O evento se deu por meio de uma transmissão ao vivo realizada na plataforma da rede social Linkedin, onde Tiago Alves – CEO da Space e Regus Brasil, membro do Procurement Club foi o mediador. Entre os convidados estavam: Henrique Nogueira - Diretor de Operações da Happy Family Brands nos EUA; Holger Schiele - Professor de Gerenciamento de tecnologia da Universidade Twente na Holanda; Marco QU - Sourcing Manager LafargeHolcim na China e Afranio Haag - Diretor de Supply Chain do Grupo Fleury Brasil.
Do ponto de vista de Henrique Nogueira o mercado nos USA, na área de Supply Chain ainda foi pouco impactada. Porém, onde atua, por ser parte da empresa francesa Danone tudo o que acontece na Europa é transmitido para eles e muita coisa ainda pode acontecer.
Supply Chain nos EUA
O governo dos EUA fechou alguns voos internacionais, mas essa ação foi feita apenas para transporte aéreo de passageiros. Cargas e mercadorias estão normais até o momento, sem grandes impactos.
Os EUA é um país que adota o Home Office há um certo tempo e gosta desse tipo de trabalho. Porém quando se trata de linha de produção, ou seja, pessoas que estão na fábrica, o operacional não pode parar e nesse aspecto pode haver algum impacto nos distribuidores e fornecedores.
Para minimizar o impacto, segundo o Diretor de Operações, Henrique Nogueira, a Happy Family tem feito a sua parte. “Em nossa própria fábrica não estamos recebendo nenhuma visita externa, nem de cliente e nem de fornecedor. Os colaboradores que atuam no escritório estão todos em sistema home office. Os colaboradores da linha de produção que estão indo para a fábrica seguem rigorosamente medidas sanitárias e de higiene”.
Nogueira comentou ainda, durante a live, que seguem trabalhando com a mesma estimativa de demanda anual que tinham no início do ano, acreditando em não haverá grandes mudanças dentro do já planejado. A expectativa dele segue positiva. “Muitas pessoas estão estocando comida e isso gerou um aumento de demanda de alimento nos mercados. Isso é o que a TV e mídia mostra e, para algumas pessoas pode parecer alarmista. Mas, quando analisamos os dados de demanda mês a mês, notamos que não houve mudança significativa.”
De acordo com o Diretor de Operações da Happy Family, o que mudou para a empresa é que agora precisam trabalhar um pouco mais rapido para conseguir distribuir os produtos e atender a demanda dos mercados. Quanto ao planejamento e visão de um futuro próximo, acreditam que haverá uma queda dessa demanda nas proximas semanas, pelo fato das pessoas ja terem estocado bastante suprimento, e também porque aos poucos vão perceber que não precisam estocar tanto assim.
Gestão de Crise – Fornecedor
Imaginando um cenário de crise, caso algum fornecedor feche as portas ou não consiga atendê-los, ou ainda caso precisem encerrar a rede de distribuição Nogueira comentou que já iniciaram a identificação dos ingredientes de produtos inventariando tudo o que usam e precisam para não interromper o fornecimento, além de ter mapeado todos os fornecedores de cada ingrediente. Com essa ação, até agora conseguem ter um panorama de sua rede de produção e distribuição com apenas uma baixa, mas que não alterou em nada a rede da empresa.
Impactos na Europa
No evento online o professor Holger Schiele deu sua valiosa contribuição ao cenário com um olhar realista dentro da vivência na Universidade de Twente, na Holanda. Ele acredita que os problemas podem ser hierarquizados considerando a China o problema numero 1 e a Europa o número 2.
Sobre o que está sendo feito para manter as operações rodando por lá o professor explicou que “demora cerca de 2 a 3 semanas para os navios com produtos saírem da China e chegarem na Europa. Então por enquanto, até o momento estão recebendo todas as mercadorias que foram shippadas. O que pode ficar mais crítica é situação de revendedores”.
O transporte de produtos e mercadorias é considerado um problema técnico que estão enfrentando, bem como o de suprimento de materiais, em virtude do fechamento de algumas empresas de produção.
O fechamento de algumas empresas na Europa, especialmente Itália e Franca aconteceram de forma inesperada por meio de paralização e manifestação de funcionários. Em outras palavras, os empregados forçaram as empresas a fecharem as portas. Por ter sido uma ação repentina e sem aviso, ficou difícil reverter ou se preparar para este cenário.
Como medida paliativa para lidar com tal situação, alguns setores estão conseguindo postergar os pedidos, para evitar que as empresas fechem.
O foco da Europa em geral tem sido no lado financeiro. Um dado importante para levar em consideracao, é a queda nos transportes, que até o momento representa uma queda de 8,3 % comparado ao mesmo período do ano passado. A análise desde dado é fundamental do ponto de vista de impacto em uma recessão econômica.
Ainda é um pouco cedo para tirar todas as lições que essa situação veio ensinar ao mercado e sair dessa experiência mais forte. O professor Holger brincou ainda, para descontrair, considerando que “é impossível prever quanto tempo a recessão econômica e crise pode durar, ja que não tem uma bola de cristal.”
Sobre as expectativas em Procurement especula-se que os preços dos produtos em geral aumente, devido a lei de oferta e demanda.
China – Sourcing pós COVID 19
Quando a questão sobre quanto tempo vai levar para voltar a atender normalmente a rede de distribuição de produtos, Marco QU fez uma breve cronologia do cenário na China.
- Fevereiro foi o pior mês para a China e o setor produtivo da indústria foi o mais afetado.
- Em janeiro, por ser um mês de férias e feriados para a maioria dos chineses, também foi um mês “parado”, antes mesmo do caos causado pela pandemia do COVID19.
- Antes disso muitas produções estavam paradas em virtude das festividades. E depois o virus se espalhou muito mais rápido do que se previa, fazendo com que as fabricas fechassem as portas por razões preventivas e de saúde pública.
No final de fevereiro algumas fabricas conseguiram voltar com suas atividades, mas foi só em meado de março que quase todas as fábricas voltaram ao normal.
Sobre o transporte terrestre Marco QU comentou que tudo está voltando ao normal e que estão sem problemas de logística.
Apesar de conseguirem shippar os produtos, algumas cargas ficam presa no porto. Porém, as operações nos portos também estão voltando ao normal e já recuperaram quase 80 % das cargas, com expectativa de recuperar 100% até o final de março.
O governo Chinês está investindo em ações que aumentam o gasto do governo, um dos componentes do PIB. Essa estrategia tem por objetivo fomentar a economia e evitar um colapso econômico. Segundo Marco QU “o governo está revisando os impostos e custos das fábricas para ajudar os produtores. E também estão colocando algumas medidas protetivas que ajudem as pessoas”. Até o momento o investimento do governo, comparado ao mesmo período do ano passado, foi 24% maior.
Governo e Economia
O governo segue injetando dinheiro para ajudar na recuperação da economia.
A contaminação comunitária na China está controlada, mas ainda há o risco de pessoas estrangeiras, que visitam o país e podem trazer o virus de volta. Essa é uma preocupação que ainda “assombra” algumas autoridades que seguem com cautela e algumas medidas, como por exemplo manter qualquer estrangeiro que chegue ao país em isolamento por 14 dias.
Algumas empresas no Brasil ainda sentem o impacto do corona virus da China não apenas devido a paralisação das fabricas chinesas por um periodo, mas também pelo fato de muitos produtos terem ficados presos nos portos, esperando liberação governamental.
Esse impacto no Brasil se deu devido as paralisações de fevereiro (na China). Agora que a produção chinesa voltou ao normal e o shippment embarque nos navios voltou a 80% da capacidade nos portos é esperado que em 2 ou 3 semanas o Brasil receba o impacto positivo do controle da pandemia na China.
Medidas de controle da Contaminação na China
Algumas medidas tomadas na China para controlar o contágio, por exemplo, foi a exigência de que pessoas transitarem em supermercados somente usando máscaras. Além disso era feita uma triagem que media a temperatura corporal de cada um, antes que entrassem no mercado para fazer suas compras.
Agora 70% dos mercados e restaurantes voltaram a funcionar e o povo chines pode voltar a frequentar sem nenhum problema esses locais.
Laboratório Fleury - Ações na Pandemia do Corona Vírus no Brasil
Classificado como pandemia no Brasil, os pacientes com sintomas de COVID-19 estão sendo enviados aos hospitais. Afranio Haag – Diretor de Supply Chain do laboratório Fleury afirmou que “não estão sendo feitos exames de COVID-19 nos centros de coleta de Fleury para manter as pessoas sem sintomas, sem contato com as pessoas que talvez tenham COVID-19.”
O Fleury opera em 30 hospitais privados no Brasil e a ação dos gestores visa proteger clientes e funcionários.
Como ação preventiva o laboratório antecipou a imunização da Influenza, para conseguir segregar o que seria Influenza e COVID-19. Abasteceram seus estoques de produtos e materiais e ainda, anteciparam com seus fornecedores o fornecimento de produtos como mascaras e luvas.
Internamente os gestores do Fleury estabeleceram um “comitê de crises” com RH, customer services, médicos, entre outros e criaram um “Warroom virtual” com esse time; assim conseguem manter a comunicação com seus principais fornecedores e parceiros de transporte, todos os dias.
Nas últimas duas semanas o laboratório tem trabalhado “mais perto” dos seus profissionais de pesquisas, para verificar a possivel criacao de material de coleta, de protecao individual e ate mesmo de teste de identificação de COVID-19; Teste biológico da molécula que não é um teste automático e demora para gerar o resultado. A equipe científica tem olhado para diferentes metodologias para rodar esse teste.
O pensamento em questão é de médio prazo, para manter suas operações de Raio X, Ressonâncias e outras rodando. Medidas foram tomadas para melhorar a comunicação interna e externa, entendendo assim a necessidade de atender seus pacientes.
Além das questões já relatadas, há uma preocupação quanto ao transporte doméstico e materiais importados; apesar do estoque estar estimado em abastecer os próximos 90 dias de atendimento.
Considerações Finais
Para Haag é uma situação diferente. O Brasil nunca passou por uma situação de pandemia. É como se fosse uma guerra com um inimigo invisivel. É necessario manter a calma para assim poder ajudar outras pessoas.
Marco QU traz uma ponderação otimista diante de uma China praticamente recuperada. A mensagem que deixa é que os brasileiros tomem os cuidados necessários e se preocupem agora em como evitar que o virus se espalhe.
Henrique Nogueira sinaliza que os USA está preparado para o pior cenário e seguem trabalhando para antecipar qualquer ação que estejam ao alcance deles. E ainda, que estão prontos para trabalhar “pesado”, pois sera o momento que o mercado mais precisará de atenção, dedicação e cuidado.
Holger pontuou que o Brasil tem a situação ainda sob controle. Para ele no momento que a China se recupera a Europa segue em seu pior momento. Alerta ainda que se usarem o exemplo da China é possível estimar que entre 4 e 6 semanas tudo começa a voltar ao normal. Com isso, a expectativa é que todos voltem a trabalhar normalmente até 1º de maio – coincidentemente ou não, dia do trabalho)
Nota do Procurement Club
“Seja Humano. Não é o momento para ser o “espertalhão”, aumentar os preços e se aproveitar da situação de crise. É o momento de sermos humanos e estarmos conectados. Juntos seremos capazes de sobreviver a isso, e talvez até sair mais forte quanto tudo isso passar. É o momento de compaixão e empatia.”
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