Certa vez eu estava participando de um encontro de lideranças, onde ali se encontravam os principais executivos e seu vice-presidente. O encontro era regional e como eram poucos e eles conviviam todos os dias, existia ali uma certa segurança psicológica para abertura de vários pontos, ainda que na segunda-feira tudo poderia voltar ao normal. O meu papel ali naquele dia era de ouvinte e ainda estava avaliando os fornecedores escolhidos para a realização daquele workshop, para quem sabe, trazer para a minha empresa em uma oportunidade de benchmarking compartilhado.
Na cadeira de ouvinte a gente aprende duas vezes, porque não tem a obrigação de se posicionar e entrar em cada debate e ainda ganha o poder da observação, não somente dos gestos, do tom de voz e da postura corporal como um todo. Há ainda as conversas paralelas aliada a comunicação com evidências distintas de cada um. A grandeza de observar um grupo te traz resultados que podem render boas reflexões, e resolvi trazê-las aqui para pensarmos um pouco juntos.
Durante aquele encontro, alguns encontraram a coragem de ir para arena e dizer o que sentiam e como lidavam com as emoções ao longo da jornada junto aos seus liderados, dores relacionadas a pressão por metas e a exposição, tanto de erros e acertos. A grande maioria deles demonstrou a real necessidade de ser ouvido, uma dor em não conseguir falar, uma frustração em não poder sofrer quando era preciso dentro do ambiente corporativo. E essa dor também pode ser a sua.
Quanto mais se cresce na organização, é muito comum, ter menos tempo com sua liderança direta, restando momentos curtos que precisam ser otimizados ao máximo na solução de problemas, discussões avançadas de estratégias, alguns poucos problemas, e se sobrar um tempinho, algo pessoal que precisa ser dividido. Aqueles líderes não tinham mais do que a metade de uma hora em intervalos de semanas seguidas para serem ouvidos, embora fosse fortemente cobrado para ouvir seus times a todo e qualquer momento, evitando a menor ruptura emocional que eventualmente um problema profissional pudesse ocasionar.
Desde aquele encontro eu buscava maneiras de entender qual seria então o caminho para encontrar maneiras de apoiar quem sempre está apoiando em posições que são desafiadoras e exigem um percentual de acertos acima da normalidade – quase que sem erros – sabendo conviver em meio a pressão de maneira anti-fragil de modo a perseguir seu crescimento, sem contar é claro, a necessidade contínua de atualizações e estudos.
O lado da liderança que ninguém vê é a solidão por trás dos bastidores, e talvez seja por isso que hoje vivenciamos uma inversão no desejo de assumir a gestão na maioria dos jovens entrantes ao mercado e o retorno para carreiras técnicas, sem a necessidade também de cuidar e desenvolver um time.
Além de zelar pelas negociações, a transparência e condução de negociações e aquisições por analistas não tão experientes com vendedores extremamente especialistas, a gestão de pessoas envolve o cuidado ativo de cada colaborador, o envolvimento com suas emoções para que não exista impacto nas entregas além de cuidar da parte de finanças para que nenhum centavo fuja ao budget, já revisitado por três ou quatro vezes em um único período de poucos meses. Isso sem contar a responsabilidade de adequação de perfil às corretas posições, a condução honesta e transparente de cada feedback, mantendo a carga motivacional do time acima da mediana. Não distante do que possa ser absorvido, dividir a responsabilidade por decisões que podem não agradar a todos, cuidar do relacionamento com os pares e stakeholders fazem parte das decisões diárias de qualquer liderança.
Dormir com a pressão pela entrega de um resultado, não somente seu, mas de um time, que por diversos motivos, pode não estar andando no mesmo compasso – e isso acontece – até que estejam todos no mesmo barco, as vezes tira o sono, causa uma úlcera, traz uma dor emocional que segue acompanhando em diversos momentos além de um desconsolo que ao amanhecer tem que ser deixado de lado para então com o brilho nos olhos, iniciar uma conversa difícil por uma decisão que não foi tomada por ele. Já pensou?
Foi vendo a imagem abaixo em alguma notícia da Internet – e caso conheça o crédito, nos avise para informar, que me fez pensar em convida-los para ver seu líder com mais compaixão, percebendo, que talvez, ele também possa estar passando por um momento difícil. E eu não duvido disso, considerando nosso cenário político e econômico.

É claro, que ser líder, envolve uma paixão que arrebenta o coração e faz tudo isso exposto acima, tão pequeno em meio a felicidade de ver vidas transformadas, pessoas construindo patrimônio por meio de seu crescimento profissional, alcançando novos cargos; absorvendo seus ensinamentos, crescendo e brilhando em outras áreas, mudando de país porque aprendeu com voce alguns caminhos que o tornavam diferenciado em meio a tantos talentos. São tantos exemplos! Não tenha dúvidas, que esse sentimento que nasce com muitos, ao mesmo tempo que não deixa de ser uma habilidade, e por tanto pode ser desenvolvida, é algo que vai além de nós mesmos, e faz sentido por que tem amor! Amor pelo que faz! E isso move!
Se tudo na vida tem dois lados, e a gente sempre vê o lado bom da liderança, as vezes fica difícil ver o lado de quem cuida daquele cuida de voce. E eu não falo de vulnerabilidade, falo de empatia mesmo. Empatia para aprender como ele aprende, para sentir como ele sente, e tentar entender como ele vive, pelo menos por um momento.
Perceba sua liderança com outros olhos – nada justifica falta de respeito e ambientes tóxicos. Não estou dizendo sobre isso e não é o ponto deste artigo. Quero buscar uma reflexão, ainda, que independente de voce gostar ou não do seu líder, perceba-o como um ser humano, converse mais, esteja mais aberto, e ofereça mais ajuda. As vezes tudo o que ele precisa é de apoio e suporte em algumas atividades, coerência e harmonia entre os liderados, cooperação e atitude na autogestão. Tempo é algo cada vez mais escasso entre as altas lideranças, sendo importante entender isso como um fato e não como algo pessoal, e saiba que seu líder também gostaria de ter mais tempo com o seu respectivo gestor e talvez até mais apoio no dia a dia. O foco não pode estar somente nos resultados, mas ele sempre caminhará com o desenvolvimento humano, forjando os comportamentos, construindo personalidades cada vez mais adeptas à cultura organizacional.
Se no papel de liderança, a busca desafiadora para conciliar a entrega de resultados efetivos com o papel da gestão adequada de pessoas é uma rotina constante, cabe entender que o suporte e apoio necessários, sem falsas expectativas, pode ser reduzido se houver a devida a atenção – por isso é primordial a proximidade da equipe, em todos os sentidos.
Liderar não é fácil, exige tempo e paciência, desenvolvimento, resiliência e um inconformismo para não aceitar nada além da zona de crescimento para ele próprio e o seu time. Entender a humanização do Lider e retirar o papel de herói desta cadeira nos traz para uma realidade que está saltando aos olhos: os líderes precisam de cuidado e apoio. Podem até não demonstrar em um primeiro momento pelo receio do julgamento, mas certamente serão cobrados por isso em futuro próximo.
Apoiar o seu líder de maneira genuína compartilhando além do desejado e esperado, trabalhando para um crescimento coletivo, deve ser parte de seus objetivos não como profissional, mas como pessoal, zelando por uma equipe sadia emocionalmente, forte e autoconfiante para novos desafios. Ele ganha, você ganha, todos serão beneficiados.
Não deixe somente para seu líder, cuide dele também! Isso vai fazer diferença na vida de vocês!
Com carinho,
Aline
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