A aposta do Outsite, como grupo, como pensamento, é de que é tempo de objetivos maiores para as empresas brasileiras em inovação. Não porque haja agora qualquer demanda mais intensa, pelo momento histórico, econômico ou social. Ao contrário, a inovação grande, que traz transformação de mercado e sociedade em larga escala — mais ambiciosa, portanto, do que aquela feita apenas no interesse interno das companhias — sempre teria sido muito bem-vinda no Brasil. Nossa aposta corrente é de que os altos executivos capazes de mobilizar feitos audaciosos para o país, hoje, podem estar mais propensos a tentar. Mais do que estiveram nas últimas décadas.
Há diversos fatores, claro, que fundamentam esta nossa sensibilidade — que é complexa e não precisa ser simplificada. Vou destacar aqui apenas um deles, de tonalidade psicológica, e bem na contracorrente do discurso que tem circulado.
Há quem diga que estamos em uma « sociedade do cansaço » — a referência mais usada parece ser um livro de divulgação de Byung-Chul Han, de 2010, The Burnout Society. A ideia é que não estamos mais em uma sociedade de obediência e controles, como teria sido talvez há cem anos, mas em uma nova conformação, na qual as pessoas engajam-se na edição da própria história de vida com muita liberdade, convidadas a tornarem-se empreendedoras de si mesmas, a expandir suas conquistas pessoais, já desvencilhadas de grandes barreiras sociais. O derradeiro limite da conquista pessoal passa a ser a própria exaustão. Únicos verdadeiros patrões de nós mesmos, com altíssimas expectativas sobre aonde podemos chegar, nós já não saberíamos mais parar. « Auto-exploração ». Burnout.
Faço aqui, brevemente, o diagnóstico oposto. Um que me faz acreditar no potencial de inovação de nossos tempos (e, afinal, a humanidade está inovando mais ou menos que há cem anos?). Para isto, destaco duas constatações auspiciosas:
( I ) Criamos fluxos de informação muito mais intensos que os que existiam há um século. Aprendemos que existe uma relação direta entre informação e riqueza econômica, e isto já tem gerado frutos nas relações sociais e no anseio por sustentabilidade. Entendemos melhor hoje que a riqueza está associada às linhas de fluxo de informação — as regiões do mundo mais informadas são também as mais ricas — e ficou claro que é preciso cobrar sustentabilidade dos detentores desta informação, já que informação é como dinheiro: quem tem mais consegue juntar mais, cada vez mais rápido.
O diagnóstico do burnout diria talvez para renunciarmos à informação, para descansar. Ao contrário, penso que é preciso selecionar melhor a informação: descobrir o que importa, participar apenas da informação mais eficaz. Não se trata de se desconectar, mas de eleger melhor as frentes de conexão. Isto requer uma disposição psicológica. É um primeiro ponto.
( II ) Além disso, houve neste século uma substancial mudança demográfica. Assim como o aumento da informação, esta mudança é construtiva. À exceção do desafio ambiental — e podemos, obviamente, pensar as pandemias, de Covid ou qualquer outra por vir, como integrantes do duro quadro ambiental — o movimento da humanidade vinha sendo positivo em aspectos importantes.
Até 2019, subiam os grandes números de escolaridade e longevidade dos povos, de defesa do meio-ambiente, de oferta de saúde, de participação democrática, caíam a mortalidade infantil e a violência, pelas métricas mais compreensivas. Em outros artigos, posso entrar nestas considerações com mais detalhe — nos dois temas: (1) da informação enquanto riqueza crescente, e (2) destes bonitos números de uma população mundial em transição.
Para já, meu ponto é que o aumento da informação e o florescimento dos povos abriu uma bifurcação: entre pessoas que conseguem estar engajadas em movimentos que elas sentem como relevantes e outras, que restam mais passivas em face da informação, e talvez se distribuam entre aquelas que apenas miram os acontecimentos pelas telinhas, intoxicadas ao mesmo tempo pela boa novidade e por informação estressante, repetitiva e irrelevante, e aquelas que até participam tangencialmente dos melhores movimentos, ao atuar ou na burocracia que eles geram na sala ao lado, ou nas mídias que os reportam — mas não sentem que vivem suficientemente a eclosão das novidades. Minha hipótese é que são principalmente estas as pessoas, muitas, que, apesar dos esforços, não conseguem tocar os acontecimentos que lhes importam, as que estão pedindo socorro sob a bandeira do burnout. Pessoas que restaram de fora da vitalidade do mundo em que habitam. Não porque estejam paradas, podem estar tentando muito, mas porque se vêem, por algum motivo, agindo no vazio.
É preciso acrescentar: esta divisão, se for usada, não deve ser posta em relação direta com nível de renda. Enquanto há pessoas em funções muito básicas — na indústria e nos serviços, na ciência e na academia humanista, na política e no voluntariado — apaixonadamente implicadas em acontecimentos arrebatadores, há também presidentes de multinacionais de última tecnologia que não encontram o tato para as coisas mais sensíveis. Há elites muito desengajadas dos acontecimentos.
Daí a pobreza da análise contemporânea do burnout: ela sugere que nosso limiar de exaustão seja quantitativo. Ao contrário, vejo que somos inteligentes em abarcar uma quantidade enorme de frentes de atuação, bastando a boa articulação de times. É o que fazem os grandes empreendedores, tanto quanto os grandes intelectuais articulam uma enormidade de ideias. Pensemos em centros de inovação ou grupos criativos ao longo da História. Quanto mais se faz, mais se pode fazer. Nosso limite nunca é quantitativo.
Quem sofre de exaustão, e este é o cerne deste artigo, talvez esgote-se por sentir irrelevância em sua própria atividade. Sensação de correr sem sair do lugar. Mesmo que esta atividade seja pomposa, até « presidencial ». É o que se descobre quando se escuta com carinho o relato das pessoas sobre seu dia-a-dia, por um critério de qualidade.
Em Cartas a um jovem político (original de 2006), Fernando Henrique Cardoso admitiu que, depois de oito anos no poder, até o cotidiano da presidência da República trazia-lhe algo de fastidioso:
« Você está lá em cima, no posto número um da República, e chega um momento em que sente que tem que ir embora. É quando as pessoas começam a entrar no seu gabinete e você pensa que já sabe o que vão dizer. Às vezes não sabe, mas começa a imaginar que sabe ou tem a sensação de que já sabe o que vai ouvir. Aí é melhor ir para casa, porque você já não está conseguindo mais ouvir, já perdeu a capacidade de captar o sentimento e os argumentos do outro. Tudo acaba virando rotina, o poder também. » (Dom Quixote, 2017, versão epub, sem página)
Não basta status, não basta informação. O interessante é que se nos recusarmos a pensar o burnout como problema de « auto-exploração », poderemos compreender a existência de um outro fenômeno, que restaria inexplicável por esta teoria pobre, quantitativa: um possível burnout apaixonado.
Penso naquele que vem do excesso de excitação do cientista diante de uma descoberta, do engenheiro diante da nova máquina, do empreendedor diante de um posicionamento não-experimentado, do atleta em face de um recorde, do artista diante da linguagem inexplorada e, porque não, do amante, no que é amado.
Exaustão. Trazida pelo mergulho fundo em um processo renovador. Ato de paixão. É uma experiência de excesso na vitalidade das coisas, quando a tocamos, quando tocamos a História, participamos dos acontecimentos. Virar a noite, em agonia. Buscar consequências mágicas, muito desejadas. Dar a última gota de energia àquilo e cair. Algumas das melhores experiências amorosas são assim. Burnout — da mais linda categoria.
Talvez possamos imaginar então, bem grosso modo, dois tipos de burnout, duas experiências levadas ao extremo. O quantitativo, da vida que se percebe esvaziada de consequências vitais, apesar do esforço reiterado e acumulado, e um burnout climático, talvez apaixonado, aquele de quem chega, ou tenta sucessivamente chegar, ao clímax de uma realização.
Parece que os gregos conheciam algo desta distinção, na sensibilidade sobre a vida. Eles reconheciam uma experiência temporal capaz de cortar o enfado do tempo cronológico. Ao lado de chronos, tempo sequenciado, plano, horizontal e, talvez, chato, tinham também a ideia de kairós. Mergulho que suspende e renova o mundo. Algo que o trabalho com inovação tem que conter, como senso de encontro, clímax, oportunidade — desde que seja a inovação verdadeira, não os processos burocráticos de « inovação » que agora pipocam nas empresas. Sensação maravilhosa.
É nisto que o Outsite aposta: que os executivos começarão a querer mais desta boa inovação, por diversos motivos. Sobretudo, simplesmente, porque ela pode fazer muito bem a eles mesmos, às empresas e à sociedade.
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