Num futuro muito próximo, as empresas que só pensam no lucro vão desaparecer do mercado. Obviamente, isso não significa dizer que as empresas não lucrativas irão prosperar. Todavia, aquelas organizações que não enxergam outras variáveis tão importantes quanto o lucro certamente não se sustentarão a longo prazo. Um aparente paradoxo que está causando uma imensa revolução nos negócios.
Para começar, a declaração inicial deste texto não é fruto da opinião de um millennial ingenuamente otimista. Recente pesquisa desenvolvida pelo professor Raj Sisodia, da prestigiosa Universidade de Harvard, mostrou como as empresas que não pensam somente no lucro têm crescimento exponencial (portanto, lucram mais) em comparação com aquelas
organizações que só pensam no retorno financeiro. Cunhou-se, então, o termo capitalismo consciente para designar tais negócios em contraponto ao capitalismo selvagem, irresponsavelmente antiético e monofocado na distribuição de dividendos.
Conceitualmente, as empresas que não pensam somente no lucro podem ser entendidas como aquelas organizações que agregam valor ao relacionamento com as suas diversas partes interessadas (stakeholders), e não somente aos acionistas (shareholders), a quem cabe desfrutar dos dividendos. Tais organizações compreendem que, para ter vida
longa, precisam cuidar da interação com colaboradores, fornecedores, clientes, comunidade e meio ambiente, em uma relação que gera valor de maneira equânime e transparente. Nenhuma empresa sobreviverá pensando apenas no curto prazo ou no seu próprio umbigo; será preciso criar uma cultura de colaboração e empatia com as diversas partes interessadas – ou crescemos todos juntos ou não há crescimento sustentável.
Um motivo chama particularmente atenção, de caráter pragmático: nos dias atuais, o próprio mercado trata de afastar parceiros de negócios com os quais não confia. Adam Smith ensinava que a base do capitalismo é a confiança. A confiança é o sustentáculo do sistema capitalista no mundo democrático. Em tempos de capitalismo consciente, ninguém quer associar marca e reputação com quem adere ao capitalismo selvagem; a interação com as
diversas partes interessadas demanda relacionamento e confiança. Sem estas, você é carta fora do baralho num ambiente de troca cada vez mais conectado.
Não à toa, organizações de todo o globo utilizam com frequência ferramentas de due diligencie, que buscam conhecer com quem se fazem negócios, buscando checar antecedentes e uma infinidade de outras informações de deixar o interlocutor estupefato. Eis o dilema da sociedade da transparência absoluta em tempos de dados abertos e sistemas interconectados. Dizer que as empresas que só pensam no lucro serão extintas num futuro próximo é
tanto um prognóstico quanto um manifesto. Não há dúvidas que precisaremos ser construtores – não apenas espectadores – do futuro que almejamos. Não é utopia acreditar em organizações com visão holística: que fortaleçam a sustentabilidade, valorizem seus colaboradores e acreditem na diversidade e no poder da inovação para melhorar a qualidade de vida as pessoas. Para isso, será preciso criar um capitalismo que efetivamente desinvista e desestimule negócios antiéticos com amplo engajamento coletivo. Parafraseando um poeta das novas gerações, para quem tem pensamento forte, o impossível é só questão de opinião.
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